O mais caricato que encontro nas páginas dos jornais desportivos são os artigos de opinião.
"Ah, vamos criar um espaço no jornal para publicar opiniões de diversos jornalistas e/ou convidados sobre temas relevantes ao nível do desporto." "Boa, bora lá!"
Mas além das estatísticas, classificações, resultados e outros factos, baseados em números concretos e comprovados, existe mais alguma coisa senão a opinião daqueles que escrevem, diariamente, os jornais desportivos?
Não lhes retiro esse direito mas não lhes concedo razão às suas obrigações. O jornalista não só deverá contribuir com a sua opinião, mas deveria, sobretudo, "mostrar" noticia.
Não lhe peço que me informe sobre o homem que mordeu o cão, nem que se limita à resposta objectiva e directa dos 5 quês: Como, Quando, Onde, Quem e Porquê (não necessariamente por esta ordem). Mas que seja aquela que procura a verdade, que faça de interlocutor entre o público e o entrevistado, pergunte o que em geral todos nós gostaríamos de ver respondido.
Isto não é um pedido para que o jornalista seja inquisidor, julgador e carrasco. É antes uma solicitação para "tocar na ferida", "acordar a besta", trazer cá para fora a noticia que está escondida, a informação relevante que teima em ser esquecida ou deturpada.
Senão vejamos, um jornalista (chamem-lhe entrevistador se preferirem) no fim de um jogo de futebol, frente a frente com o treinador da equipa que perdeu, em vez de tentar obter as resposta que interessam saber, limita-se a questionar aquilo que nós todos já conhecemos como resposta e que, em grande parte, é a mesma resposta que ouvimos todos os fins de semana.
Jornalista - A sua equipa perdeu. Agora está mais difícil alcançar o primeiro lugar?
Nem me vou dar ao trabalho de transcrever a resposta do treinador. É óbvia demais e, de certeza, não vem trazer nada de novo ao receptor dessa informação. É claro que fica mais difícil alcançar o primeiro lugar. A não ser que sejamos tão ignorantes e analfabetos que não percebemos que a ideia do jornalista era obter outras respostas. Talvez como estas:
Jornalista - A sua equipa perdeu. Agora está mais difícil alcançar o primeiro lugar?
Treinador - De forma alguma. Agora até está mais fácil. Estão todos a pensar como o senhor e vamos apanhá-los de surpresa!
Jornalista - Tiveram algumas oportunidades mas, no momento final, não conseguiram finalizar?
Treinador - Perfeitamente mentira! Nós finalizámos e muito! Não estava era ninguém a ver, por isso não contou.
Jornalista - O que espera fazer agora no próximo jogo?
Treinador - Perder! Apostei com a minha prima que perdíamos 6 jogos. E como falta um...
Não digo que o jornalista não faça perguntas inteligentes, como saber o que o treinador vai dizer aos jogadores no balneário ou se o jogo anterior terá prejudicado o rendimento dos jogadores, pois são respostas que só o treinador nos poderá dar. Mas, ainda assim, não deixam de ser naturais. Não sabemos especificamente o que ele vai dizer (nem o próprio porque na altura até pode alterar o seu discurso e a noticia deixa de ser rigorosa) mas sabemos que não será boa coisa.
Façam perguntas que realmente valham a pena. Porque é que fez uma substituição que veio a revelar-se infrutífera? Porque joga jogador "x" se não produz em campo?
Provavelmente as respostas dos treinadores não serão muitos agradáveis. Ele é que decide, ele toma as decisões com base no que tem à disposição, etc. Continuem! Insistem!
Sabemos porque não o fazem. Das duas uma, ou cobardia ou "graxa". Não há "tomates" para chegar ao âmago da questão. Limita-se ao óbvio e fácil e preenche-se programação noticiosa e papel de jornal.
27 março, 2007
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